Princípios Teológicos
para a
Ação Missionária
Reformada
Timóteo
Carriker
Uma boa parte do texto é uma adaptação
da reflexão bíblica que se encontra no capítulo nove do
livro
Missão Integral: Uma teologia bíblica, Ed. SEPAL,
1992, do mesmo autor.
Introdução
Recentemente as denominações presbiterianas no Brasil
têm passado por uma conscientização missionária. Isto
se torna evidente não só pela proliferação de
conferências missionárias patrocinadas por igrejas locais, mas
também pelos encontros, consultas e conferências nacionais
promovidos pelos diversos órgãos da IPB, desde a sua
Comissão Executiva do Supremo Concílio (em março deste ano)
até as diversas juntas. Também se evidencia pelas consultas, ao
longo dos últimos anos, da Igreja Presbiteriana Independente, a
implantação recente dum curso de preparo e educação
contínua para missionários da mesma denominação, e a
inauguração neste ano do programa de
pós-graduação em missiologia do Seminário
Presbiteriano do Sul.
O estudo seguinte visa esboçar alguns princípios
teológicos que possam orientar este interesse missionário
crescente. Tanto os detalhes quanto a própria linha mestre desta
reflexão precisam ser debatidos e modificados amplamente nas igrejas.
Servem de trampolim para tal tarefa. As sugestões são derivadas de
três fontes: uma reflexão bíblica, a tradição
reformada, e as discussões de missiólogos contemporâneos.
Idealmente os princípios propostos devem ser os mais patentes
possíveis para servirem de orientação em todos os
níveis da igreja. Aqui organizamos os princípios em três
afirmações.
1. Primeira Afirmação
A missão tem a sua origem no próprio relacionamento da
Trindade (princípio 1) e encontra o seu instrumento na
incumbência missionária atribuida à igreja (princípio
2). Disto surge o princípio de integralidade da missão
(princípio 3). Noivo (Cristo) e noiva (igreja) possuem
estratégias, metodologias, alvos e objetivos em comum.
1.1 A origem da missão: O Deus
triuno
Através de toda a revelação bíblica se torna
patente que o principal agente no drama é Deus. "No princípio
criou Deus ..." É Deus quem cria, quem julga, quem age,
quem escolhe, e quem se revela. Ele é ativo não só na
criação, mas também nos julgamentos, na
libertação do seu povo do Egito, nas exortações dos
seus profetas e na promessa de restauração vindoura. Ele é
o único e verdadeiro Deus e deseja que sua glória seja conhecida
nos céus (Salmo 19) e nas extremidades da terra (Isaías
11.9).
Portanto, "missão" é uma categoria que pertence a Deus. A
missão, antes de ter uma conotação humana que fala da
tarefa da igreja, antes de ser da igreja, é de Deus. Esta
perspectiva nos guarda contra toda atitude de auto-suficiência e
independência na tarefa missionária. Se a missão é de
Deus, então é dEle que a igreja deve depender na sua
participação na tarefa. Isto implica numa profunda atitude de
humildade e de oração para a capacitação
missionária, uma dependência confiante em Deus, em vez da
independência característica da queda, do dilúvio, da torre
de Babel e do próprio cativeiro.
Por outro lado, se a missão é de Deus, temos a
segurança de que é Deus quem está comandando a
expansão do seu reino, nos seus termos, e isto nos dá plena
convicção de que ele realizará os seus
propósitos.
Implicações
1.1.1 O embasamento teológico para a tarefa missionária da
igreja é especialmente importante por causa da dependência
que a igreja tem dele e para medir os nossos esforços com o
padrão divino.
1.1.2 Isto releva mais ainda o papel da oração e a postura de
humildade que a igreja necessita. Em termos práticos, deve se indagar se
a igreja está devidamente informada através das
publicações, materiais didáticos, congressos e
conferências para sempre orar pelo desempenho
missionário.
1.2 O instrumento da missão: a
Igreja
Se Deus é o agente e a origem da missão, ele não
trabalha sozinho. Seu instrumento é um povo específico. A
missão também é a tarefa da igreja que, por sua vez,
é derivada então da missão de Deus. Deus
escolhe um povo específico como instrumento da sua missão. Elegeu
um povo, Israel, no Velho Testamento e com este fez uma aliança peculiar
a fim de que este fosse a sua testemunha no meio das nações
(Gênesis 12.3; Êxodo 19.5-6; Efésios 3.10; 1 Pedro 2.9-10). A
eleição de Israel, antes de denotar qualquer favoritismo
exclusivista de Deus, teve um propósito inclusivo de
serviço missionário para as nações. Quando
não cumpria este propósito, Israel era julgado através das
mesmas nações para as quais ele deveria ter dado testemunho e
deveria ter sido uma bênção.
Esta perspectiva nos guarda contra todo sentimento de favoritismo
exclusivista. Não nos orgulhemos na nossa eleição com
atitude de superioridade espiritual para com os que não crêem,
separando-nos socialmente deles. A eleição não é
para separação social (separação moral, sim!), mas
participação e serviço. A igreja não encontra sua
identidade verdadeira em contraposição social ao mundo, mas
justamente numa relação com ele, uma relação
não de identificação com seus valores, mas uma
relação evangelística de serviço e testemunho
ousados. Então, esta perspectiva também nos guarda contra todo
escapismo deste mundo para um plano espiritual além.
Também nos guarda contra toda passividade e comodismo. A
missão de Deus não inibe a atividade do seu povo, mas dinamiza-a.
Se foi Deus quem escolheu, fica patente que escolheu um povo para,
através dele, realizar sua missão. A igreja passiva quanto ao seu
envolvimento missionário não poderá invocar a soberania
exclusiva de Deus como justificativa pela sua passividade, pois o Deus soberano
escolheu o seu povo para testemunhar. Usando um exemplo do Novo Testamento, era
necessário que Pedro pregasse para Cornélio, muito embora o
anjo que o precedeu bem pudesse ter anunciado o evangelho para este
centurião (Atos 10). Para atingir alvos universais, a
restauração de toda a criação, Deus escolheu meios
particulares, um povo.
Implicações
1.2.1 Baseado neste princípio convém refletir sobre o tipo de
estrutura(s) missionária(s) mais apropriada(s) para a igreja. A tarefa
missionária pertence à igreja toda e em todas as suas
dimensões e níveis. Uma coordenação estrutural,
fiscal e administrativa seria uma maneira de refletir isto. Entretanto,
não significa necessariamente que as estruturas de envio
não-denominacionais ou mesmo projetos de presbiterianos locais
independentes (dos concílios da igreja local, dos presbitérios,
dos sínodos, ou do Supremo Concílio) estejam fora da vontade de
Deus. Trata-se em parte da definição de "igreja" e trata-se
historicamente do mistério da vontade de Deus em situações
em que uma estrutura denominacional não atenda às múltiplas
dimensões da sua incumbência missionária. Seja como for,
creio que a denominação deve assumir sua tarefa missionária
estruturalmente, procurando manter em sadia tensão os seus
órgãos em nível do Supremo Concílio (as diversas
divisões duma estrutura missionária unificada) e expressões
estruturais mais localizadas e sob medidas (projetos e
organizações de sínodos, presbitérios e igrejas
locais). Não seria, de maneira alguma uma tarefa fácil, mas
também não impossível. Por exemplo, talvez a igreja (IPB)
possa criar uma divisão que: 1) ofereça orientação
para sínodos, presbitérios e igrejas locais sobre a
organização e administração das suas estruturas
locais; 2) ofereça treinamento ou recomende treinamento por
organizações competentes; e 3) dê o seu reconhecimento
eclesiástico periódico para as estruturas que se enquadram dentro
dos padrões e alvos da igreja. Poder-se-ia aplicar este mesmo
princípio às estruturas educacionais da denominação
que, dentro dos parâmetros acadêmicos e eclesiásticos
estabelecidos por ela, seriam regidos mais pelas suas juntas locais e poderiam
ter os seus enfoques mais específicos de preparo.
1.2.2 Se a tarefa missionária tem como o seu instrumento a igreja,
é importante que isto se reflita na igreja cristã toda. Celebramos
o desejo atual de muitas pessoas nas igrejas que querem ampliar as suas
parcerias com outras denominações. Acreditamos que o
próprio testemunho missionário diante do mundo depende disto
(João 17.20-21). É também uma tarefa difícil e
delicada que não poderá ser apressada. Entretanto, sem um
ecumenismo bíblico e sadio, o testemunho missionário cai por
água abaixo.
1.3 A integralidade da missão: Deus e a
Igreja
Como os dois conceitos do Servo de Iahweh e do Filho do Homem no Antigo
Testamento oscilam entre uma referência individual e uma coletiva, nossa
referência à missão varia entre uma referência
à missão de Deus e outra à missão do povo de Deus.
Discursando a respeito de missão, referimo-nos, ora à
missão de Deus, ora à missão da igreja,
considerando o conteúdo do primeiro, e por conseqüência, logo
refletindo sobre as implicações disto para o segundo. Tal discurso
ilustra a dinâmica e integralidade da missão como sendo a
missão de Deus e da igreja.
Deus partilha sua tarefa com seu povo e nela o convida a participar. Este
recebe a promessa de que Ele estará sempre presente na
realização da missão. Decerto, a missão de Deus
jamais poderá ser sinônimo da missão da igreja. Por outro
lado, nem tampouco poderá a missão da igreja ser considerada
absolutamente divorciada da missão de Deus. A dinâmica entre os
dois encontra sua expressão ideal à medida que a igreja discerne a
missão de Deus e se conforma à mesma, um ideal que embora nunca se
realize perfeitamente, mesmo assim se manifesta em parte.
A vice-regência do homem sobre a criação teve como um
propósito refletir a soberania de Deus, mas jamais duplicá-la ou
substituí-la. Israel herda este papel de embaixador de Deus no meio das
nações, ou melhor, de sacerdote e testemunha. Portanto, Deus e o
seu povo não são competidores na missão, e, sim,
cooperadores, sendo a igreja serva da missão de Deus. Enquanto o povo de
Deus é convidado a participar com Deus na sua missão de
restauração, Deus promete sua presença no desempenho da
missão do povo de testemunha diante das nações.
Implicações
1.3.1 Tal perspectiva da dinâmica da missão nos guarda, por um
lado, contra uma identificação completa dos programas
missionários das denominações e agências
missionárias com o propósito e missão global e integral de
Deus. O povo de Deus reflete, apenas parcial e imperfeitamente, a
missão de Deus. Historicamente, nem sempre a missão da
igreja refletiu o caráter justo, salvador e libertador de Deus. A
íntima associação de missões com a política
expansionista e conquistadora do Império Carolíngio do
século VIII na Europa e da Ibéria do século XVI na
América Latina, ou com o colonialismo do século XIX na
África Negra, proíbe qualquer identificação estreita
da missão de Deus com o conceito que às vezes se tem de
missão da igreja. Até hoje, um certo triunfalismo às
vezes se evidencia nas nossas promoções e nos slogans
missionários que jamais poderá ser comparável com a
adoção humilde do papel de missionário-servo do povo de
Deus no meio das nações.
1.3.2 Por outro lado, esta dinâmica da missão estimula e
capacita o povo de Deus a uma aproximação e à
participação com a missão de Deus e nos dá a
confiança, mesmo em meio de dificuldades e desânimo, de que Deus
vai levar avante sua missão. Ele é criador do mundo e autor da
história, e sua missão de restaurar aquele e completar esta vai se
realizar, não apesar, mas através do seu povo.
1.3.3 A cruz é o supremo padrão vivencial e
paradigmático do procedimento missionário. Implica em humildade e
não orgulho (Filipenses 2:5-11), sofrimento e não glória
(Colossenses 1:24), sacrifício e o desafio radical para as nossas
congregações. Isto deve temperar todo o nosso planejamento e
organização.
2. Segunda Afirmação
A existência de toda a Bíblia é a primeira
evidência de que Deus tem uma missão, um propósito
salvífico para este mundo (princípio 4). Ele não é
um Deus abstrato mas é o Deus que age no nosso meio, que se revela por si
mesmo a nós e que tem uma finalidade para sua criação. Se a
origem da missão está em Deus—"no princípio criou
Deus..."—seu fim está no alcance universal da sua
misericórdia e graça (princípio 5)—"a graça do
Senhor Jesus seja com todos" (Apocalipse 22.21). E este propósito
restaurador da missão tem uma dimensão universal. Se Deus é
o principal agente ou sujeito da missão, e a restauração o
seu conteúdo, então seu alcance abrange a criação
toda. Este é o lugar onde a missão se desdobra, o
mundo, e o seu processo se realiza na história deste mundo
(princípio 6).
2.1 O propósito da missão: a
Salvação
Para usar um termo mais abrangente, podemos descrever o propósito da
missão como sendo o de restauração. É a
missão da salvação. Aquilo que Deus criou, ele pretende
restaurar. Contudo, a restauração é salvação
não só no sentido de poupar, mas também no sentido de
julgar. Haverá um novo céu e uma nova terra, mas isto
através do sofrimento, tribulação e julgamento. A mensagem
de restauração no Velho Testamento, consistentemente, inclui estas
duas dimensões de salvação e de julgamento. Vemo-nas no
relato do dilúvio (julgamento) e da arca (salvação), da
torre de Babel (julgamento) e do chamamento de Abraão
(salvação), no Êxodo, na aliança com Israel e na
conquista de Canaã. Vemo-nas nas críticas dos profetas
(julgamento) e nas suas promessas de salvação vindoura. E
vemos-nas na resposta humana à provisão do perdão dos
pecados pela morte e ressurreição de Jesus.
Ou misericórdia ou julgamento, era a sorte dada a Israel e às
nações, de acordo com o seu relacionamento de dependência
de Deus e com o seu relacionamento de misericórdia sobre a
criação, duas características da imagem de Deus no
homem. Por isso, tanto a adoração apropriada e genuína para
com Deus (que demonstra a sua dependência) quanto a justiça
expressa nos relacionamentos sociais e ecológicos dentro e fora de Israel
(que demonstra a sua função de mordomo), eram o critério
usado para determinar a ação divina, ou julgamento ou
salvação, ambos como alvo da restauração da
criação e da humanidade.
Este critério duplo, adoração e justiça,
integra as dimensões pessoais e sociais da missão de
restauração, fundindo as distinções espirituais e
materiais da fé. A verdadeira espiritualidade terá
expressão mais aguda nas relações concretas em que o povo
de Deus vive.
Esta perspectiva do propósito restaurador da missão nos
guarda contra a falsa dicotomia da tarefa missionária e da fé.
Restauração é este propósito, portanto a obra
redentora de Jesus Cristo e a evangelização permanecem centrais
à missão de Deus. Contudo, esta redenção deve ser
entendida como resultando tanto em adoração própria e
sincera a Deus quanto em relações de justiça para com o
próximo e para com toda a criação.
Implicações
2.1.1 Em termos de adoração, isto implica na
dinamização nas igrejas cristãs, do culto e especialmente
da liturgia. Implica na valorização e implementação
de músicas e liturgias contextualizadas, com conteúdo
bíblico e expressão afetiva, enfim, um culto que leve o povo
à profunda e sincera adoração e não ao mero
estímulo intelectual.
2.1.2 O propósito da missão como sendo a
restauração, além de implicar em adoração
própria, também implica em relações de
justiça dentro e fora do povo de Deus. Decerto, pouco o povo de Deus
teria de testemunho quanto às questões de justiça se no seu
próprio meio estes padrões não encontrassem
expressão. Ser povo de Deus implica em refletir algo do caráter de
Deus, e isto inclui fundamentalmente a qualidade de justiça. Por isso, a
diaconia na igreja primitiva assumiu uma importância essencial para o seu
testemunho no mundo. A igreja necessita de uma perspectiva bíblica da sua
tarefa para formular seu entendimento sobre estas questões de acordo com
os padrões e ensinos bíblicos. Tal formulação
só poderá desafiar a igreja a participar no propósito da
missão como sendo a remissão dos seres humanos e da
criação toda; e esta participação se
manifestará através de uma adoração sincera e
exclusiva ao Senhor e através de padrões de justiça dentro
da igreja que a chame a anunciar o domínio de Deus ao mundo, o que
implica, simultaneamente, em padrões de justiça no
mundo.
2.2 O alcance da missão: Universal
Deus se propõe a restaurar aquilo que criou. Sua missão
é uma missão para a criação. Não é por
acaso que a revelação escrita que descreve a missão de Deus
começa com a criação dos céus e da terra e termina
com a restauração dos mesmos num novo céu e nova terra. O
homem não só é guardião do seu próximo, mas
mordomo da própria criação. Através do julgamento do
dilúvio, não só parte da raça humana é salva,
mas também parte representativa da criação toda. As leis da
aliança detalham as dimensões religiosas, sociais e
ecológicas da fé e da obediência do povo de Deus, provendo
instruções para o bem-estar de toda a criação e toda
a vida, em todas as suas múltiplas dimensões. Os salmos e hinos no
Velho Testamento incluem os louvores não só do povo de Deus, mas
também da própria natureza; e a era vindoura de
salvação só pode incluir a expectativa de
restauração não só de Israel e das
nações, mas da criação toda (Isaías 43.18-21;
65.17-25).
Implicações
2.2.1 Esta perspectiva nos guarda contra toda sorte de miopia
missionária. Não nos satisfazemos até que todos os povos,
línguas, tribos e nações recebam o evangelho do reino
(Mateus 24.14) para o louvor do Cordeiro de Deus (Apocalipse 5.9-14; 7.9-12),
implica então numa motivação e estratégia
evangelística que procure ir não só para os mais
distantes lugares, mas aonde quer que Cristo não tenha sido
anunciado (Romanos 15.20), quer sejam grupos humanos negligenciados ou
"escondidos" por perto, quer sejam povos não-alcançados mais
distantes.
2.2.2 Os meios concretos desta missão evangelística
incluem primordialmente a proclamação verbal do evangelho, e
também a implantação de igrejas locais.
2.2.3 Mas o alcance da missão não pára com toda a
raça humana. Também implica na igreja assumir a tarefa de mordomo
sobre a criação toda. Problemas ecológicos como a seca no
nordeste, enchentes no sul, desflorestamento da Amazônia,
poluição do meio-ambiente, o uso apropriado e a
redistribuição de terras também devem ser tratados pelo
povo de Deus. Fazem parte da sua missão. Que isto seja dever do governo
não há dúvida, contudo a igreja antes, tendo uma
restauração substancial da imagem de Deus nela, deve opinar e se
envolver num testemunho para toda humanidade e toda a
criação.
2.3 O local da missão: o Mundo e a
História
Desde o início do testemunho bíblico observamos que Deus age
dentro e através de eventos concretos na vida dos seres humanos.
Ele não se manifesta num plano contemplativo e fora deste mundo, mas
dentro e através da história. Julga através da
expulsão do Éden, através do dilúvio e da
dispersão de povos. Julga as nações através das
pragas no Egito, a conquista de Canaã e a queda de um império por
outro. Julga seu povo através dos profetas e através do
exílio. Mas também abençoa através da
libertação do Egito, do exílio, e de modo supremo e
definitivo através da morte e ressurreição de Jesus.
São todos estes eventos históricos, acontecimentos neste
mundo. Até mesmo a literatura apocalíptica, que enfatiza um
contraste com este mundo, ensina que a intervenção futura e
catastrófica de Deus será uma irrupção para dentro
desta história e deste mundo. Embora enfatize
descontinuidade com a progressividade natural da história humana,
não transfere o cenário dos atos salvíficos de Deus
para um plano extra-histórico ou ultra-mundano. Apenas ressalta a
opção sempre presente e futuramente iminente da
intervenção divina na história, como sendo abrupta e
extraordinária.
Implicações
2.3.1 Creio que a perspectiva bíblica ilumine muito a tarefa ou a
missão da igreja no Brasil e em toda a América Latina. Sabendo que
Deus atua num projeto histórico, a igreja tem uma boa base para se
perguntar: "Onde, nos eventos históricos da realidade latinoamericana,
podemos discernir a mão de Deus?" Alguns podem entender isto como sendo
uma secularização da fé. Não é nossa
intenção. Em vez de reduzir a missão de Deus aos afazeres
deste mundo, queremos discernir onde e como Deus poderá
estar manifestando seu reino na nossa história. Implica na
proclamação do evangelho para arrependimento e conversão. E
implica em participar na luta pela justiça. Com os pés no
chão, as mãos em oração e os olhos abertos à
realidade multidimensional e latinoamericana, a igreja dá testemunho pela
proclamação das boas novas e pela promoção de
justiça de maneira concreta e visível.
2.3.2 Implica numa desmistificação da fé. A verdadeira
espiritualidade não é aquele jejum "sagrado" com
orações de belas palavras perfumadas, mas é um estilo de
vida cotidiano para com o seu próximo que reflete o caráter justo
de Deus (Isaías 58.6-7).
Uma análise, até superficial, da situação
socio-econômica na América Latina deixa a igreja sem desculpa
quanto à sua missão neste mundo e nesta história: anunciar
às nações a chegada do reino de Deus e viver um modelo
deste reino através de sincera adoração e de um
padrão de justiça que tome expressão no mundo e na
história.
2.3.3 Não obstante, este processo jamais poderá ser
identificado simplesmente com o processo histórico e humano. A literatura
apocalíptica e as intervenções singelas e dramáticas
de Deus na história de Israel (ex.: o êxodo) nos distanciam de uma
plena confiança nos processos apenas humanos da história. O reino
de Deus não poderá ser identificado com o processo
histórico, embora possamos e devamos detectar indícios deste reino
na história. Conquanto a era escatológica seja apenas divinamente
inaugurável, o povo de Deus também participa na sua
promoção. E, conquanto sua realização seja apenas
futura, já podemos discernir sinais dela na história
presente.
2.3.4 Não podemos tolerar uma visão estreita e imediatista
que sempre vê apenas os desafios atualmente urgentes. Tal
visão curta se alimenta duma escatologia superficial, se sujeita à
tirania do urgente e evidencia cegueira histórica. Paulo, que desejava o
retorno de Cristo, teria razão de pensar assim, mas não o fez.
Sempre pressupôs o longo prazo para o seu desempenho pastoral e
missionário. Necessitamos, portanto, duma visão larga, profunda e
extensa do presente porque os desafios são eternamente urgentes,
uma visão escatológica do agora baseada no passado distante
e um futuro que é prerrogativa apenas de Deus (Atos 1.8, repare
que o "mas" responde à tentação de identificar datas ou
prazos temporais). Entre outras coisas, este princípio implica num
preparo prolongado, diante tanto do tamanho quanto da urgência do
trabalho
2.3.5 O ensino, a proclamação, a cura e a
libertação todos fazem parte da missão da igreja. Isto deve
ser refletido nas atividades dos nossos obreiros missionários, sendo eles
pregadores da Palavra (evangelistas e pastores/apóstolos), e
também professores, gente da área de saúde, agronomia,
etc.
3. Terceira Afirmação
O alvo e o fim último da missão é a glória de
Deus, não a atividade missionária em si. O desafio
missionário existe e persiste porque o culto pleno a Deus ainda
não existe. O culto é o alvo último da igreja. O
culto a Deus deve ter prioridade na igreja, não a obra
missionária, porque Deus é último, e não o ser
humano. Quando esta era terminar e representantes de toda raça, tribo e
nação se dobrarem diante do Cordeiro de Deus, a obra
missionária não mais existirá na igreja. Mas
existirá o louvor e a adoração. Permanecerá na
igreja o culto. O culto é o fim último da igreja e o desejo
máximo de Deus para toda a humanidade. A primeira pergunta do Catecismo
de Westminster diz: "Qual é o fim principal do ser humano?" E a resposta
acertada é: "O fim principal do ser humano é glorificar a Deus e
gozá-lo para sempre." Uma reflexão sobre Romanos 15.4-13
ilustrará que a glória de Deus no culto e a razão
(princípio 7), o combustível (princípio 8) e o
alvo (princípio 9) da obra missionária.
3.1 A razão de missões: a
Glória de Deus
Os versos 8 a 9 de Romanos 15 fazem uma afirmação: Jesus
Cristo comprova a fidelidade e veracidade de Deus porque, através dele,
as promessas de Deus para o povo judeu se cumprem. Afinal, somente um deus falso
e infiel não cumpre as suas promessas. Em Romanos 15.12, Paulo cita
Isaías 11.10 como apoio das Escrituras para sua afirmação
que em Jesus Deus se prova fiel às suas promessas. Os
beneficiários das promessas são primeiro os judeus e também
as nações. Este, aliás, é o tema principal de toda a
carta aos Romanos, como vemos no 1.16: "Na verdade, não me envergonho do
evangelho: ele é força de Deus para a salvação de
todo aquele que crê, em primeiro lugar do judeu, mas também do
grego."
Em Romanos 15.9 as nações glorificam a Deus "por causa da
sua misericórdia". Isto é, em Jesus Cristo, elas também
se beneficiam da salvação que Deus dá, e como Paulo havia
falado nos capítulos 9 a 11, as nações estavam, de fato,
aceitando em grandes números, o evangelho. Portanto, a
misericórdia de Deus em estender a salvação para as
nações é a suprema razão da obra
missionária. É iniciativa e obra dEle, portanto, nós, os
embaixadores de Deus, teremos toda razão de anunciar tão grande
oferta. Enraizamos a razão da obra missionária não no ser
humano, na sua carência de Deus, ou no seu amor para com aqueles que
não tem Deus, mas a razão da obra missionária está
firmemente enraizada na iniciativa e na misericórdia de Deus, isto
é, na sua soberania.
3.2 O combustível de missões: a
Glória de Deus
A paixão por Deus no culto precede a oferta de Deus na
pregação. Não se pode recomendar com
convicção aquilo que não se estima com paixão.
Não poderá clamar, "Alegrem-se e exultem as gentes" (Salmo 67.4a)
aquele que não pode afirmar no seu coração, "eu me
alegrarei no SENHOR" (Salmo 104.34b; 9.2). "Quando a chama do culto queima com o
calor da verdadeira dignidade de Deus, a luz da obra missionária
brilhará até os povos mais distantes da terra" (John Piper, p.
12). Quando a paixão por Deus está fraca, o zelo por
missões certamente será fraco também. As igrejas que
não exaltam a majestade e a beleza de Deus dificilmente poderão
acender um desejo efervescente para "anunciar entre as nações a
sua glória" (Salmo 96.3). Os nossos cultos fervem com a
exaltação da glória de Deus? O zelo pela glória de
Deus no culto motiva a obra missionária. John Piper, cita o seguinte
pronunciamento de Andrew Murray feito há mais de cem anos:
Enquanto buscamos a Deus sobre por que, com tantos milhões de
cristãos, o verdadeiro exército de Deus que está combatendo
os exércitos da escuridão é tão pequeno, a
única resposta é — falta de coragem e entusiasmo. O
entusiasmo pelo reino de Deus está faltando. E isto é porque
há tão pouco entusiasmo pelo Rei.
Ninguém poderá se dispor à magnitude da causa
missionária se não experimentar a magnificência de Cristo
(Apocalipse 15.3-4; cf. Salmos 9.11; 18.49; 45.17; 57.9; 96.10; 105.1; 108.3; e
Isaías: 12.4; 49.6; 55.5)
Nunca esquecerei do jovem rapaz que nos visitou em Santa Maria, Rio Grande
do Sul. Ele falava do seu entusiasmo de evangelizar, no início da
sua fé. Naquele momento, entretanto, ele achava que já amadurecera
e portanto não possuía mais tanto zelo de evangelizar! Ele
precisava mesmo renovar a alegria da sua salvação para que
fluísse, em conseqüência disto, o culto a Deus e a
evangelização (Salmo 51.10-15). O culto é o verdadeiro
combustível para a obra missionária.
3.3 O alvo de missões: a Glória
de Deus
O culto é o alvo da obra missionária simplesmente porque
nosso propósito é levar as nações a se regozijarem
em Deus e glorificá-lo acima de tudo. O alvo da obra missionária
é a alegria dos povos na grandeza de Deus (Salmo 97.1; 67.3-4; cf. 47.1;
66.1; 72. 11, 17; 86.9; 102.15; 117.1; e Isaías 25.6-9; 52.15; 56.7;
66.18-19.
Há um aspecto desta verdade que precisamos explorar mais. É o
seguinte: O culto a Deus como alvo da obra missionária ajuda a entender a
própria definição da obra missionária. Pois a obra
missionária enfatiza a prioridade de alcançar povos, ou etnias
não alcançadas. Isto se evidencia na repetida
descrição bíblica da tarefa missionária em termos de
etnias (Mateus 24.14; 28.18-20; Romanos 15.19-21). Na Bíblia, a frase,
panta ta ethn, significa "todas as nações" ou "todas as
etnias". A palavra na forma singular, ethnos, de fato, sempre se refere
à coletividade dum povo ou duma nação. Nunca se refere a
indivíduos gentílicos. O mesmo é geralmente verdade
em relação a palavra na forma plural, ethn. A frase,
panta ta ethn, quase sempre denota esta referência coletiva na
Bíblia, também. Que a estratégia bíblica seja
de alcançar especialmente as etnias não alcançadas é
claro em Romanos 15.19-21. Para muitos cristãos, talvez até a
maioria, esta estratégia não parece muito lógica. Antes
alcançar todos os indivíduos ao nosso alcance e semelhantes
culturalmente a nós, que procurar alcançar representantes de
etnias que podem ser geográfica ou culturalmente distantes. Parece
uma questão de mordomia de esforços.
Este raciocínio parece, sem dúvida, bastante lógico e
leva muitas igrejas a desconfiar da estratégia missionária de
alcançar representantes de diversas etnias. Meu ponto é o
seguinte: se fosse pelo amor humano pelo ser humano, nossa ênfase deveria
estar na salvação de indivíduos que estão
próximos, e isto, de fato, é a prática comum. O amor a
Deus, entretanto, leva a outra conclusão, que acredito ser a
bíblica: a ênfase na prioridade de etnias, e especificamente etnias
não alcançadas porque: 1) há mais beleza e poder de
adoração na unidade de culto derivada da diversidade de povos que
canta todas as partes dum hino a Deus do que no coro que canta uníssono
(Salmo 96.3-4); 2) a fama, a grandeza, e o valor dum objeto de beleza aumenta na
proporção da diversidade daqueles que reconhecem tal beleza; 3) a
força, a sabedoria e o amor dum líder se magnifica na
proporção da diversidade de povos que ele inspira para segui-lo; e
4) ao focalizar todos os grupos humanos do mundo, Deus está subvertendo o
orgulho etnocêntrico que se baseia em alguns atributos distintivos que
cada povo gosta de destacar. Ao invés disto, o orgulho etnocêntrico
natural de cada povo dá lugar à graça imerecida de
Deus.
Implicações
3.3.1. A liturgia, a educação cristã, e o evangelismo
todos fazem parte da missão e testemunho da igreja. Como expressar isso
estruturalmente na igreja?
3.3.2. A estratégia missionária se resume na frase: os
não-alcançados. O lema de Paulo era "não onde Cristo
já fora anunciado" (Rm 15.20-21) e não "até aos confins da
terra" (At 1.8). Ele literalmente "preenchia" os vãos onde o evangelho
não fora anunciado (Rm 15.19 cf. Cl 1.25). Esse slogan deve ser o nosso:
não onde Cristo já fora anunciado. De certo modo a
denominação se preocupará com o estabelecimento de igrejas
onde igrejas desta denominação ainda não foram
estabelecidas. Tal meta tem uma certa lógica organizacional, mas esta
meta deve ser secundária (não descartada) da meta maior de
"não onde Cristo já fora anunciado."
Conclusão
A obra missionária começa e termina com o culto prestado
à glória de Deus. Começa, porque somente o culto
genuíno e profundo pode motivar adequadamente a igreja para assumir sua
vocação missionária. E termina, porque o alvo último
e o fim principal de toda humanidade é glorificar a Deus e gozá-lo
para sempre. E na obra missionária, procuramos levar as
nações à mesma alegria e exaltação que
carateriza o nosso culto a Deus. Portanto, quando afirmamos que a obra
missionária é a prioridade penúltima na igreja não
estamos diminuindo a sua importância. Estamos meramente fazendo o que
devemos, maximizando a tarefa de glorificar a Deus e gozá-lo para sempre.
E assim, enxergamos a verdadeira importância da obra missionária,
certamente acima de outras atividades na igreja, isto é, estender e
diversificar, e assim intensificar o culto que glorifica e se deleita em Deus
entre todas as nações da terra (Apocalipse 5.9-10;
7.9-10).